Vergonha

sábado, outubro 19, 2013

Estamos no fundo. Não consigo imaginar nada mais negro que isto. Este país é uma vergonha.

Um país onde o desemprego é um flagelo. Onde as pessoas querem pôr as mãos à obra, e trabalhar, e ninguém lhes pode assistir. Os jovens querem ser independentes, sair da casa dos pais, começar uma vida, e não conseguem. Famílias inteiras vêm os seus membros ficar sem trabalho enquanto as bocas não se alimentam sozinhas. As pessoas partem para longe, separam-se de quem amam, numa busca da possibilidade de pôr pão na mesa. Um país onde o desespero é ter saúde, tempo, mas não ter dinheiro. É ter capacidade de lavar, esfregar, vender, limpar, amassar pão, servir cafés, e ninguém querer saber. Um país onde trabalhar é um luxo, e quem o tem só deve agradecer, e aceitar toda a exploração e condição deplorável que daí advenha.

Onde a educação está pela hora da morte. Onde se pagam balúrdios para estudar. Onde os apoios são quase inexistentes. Onde as crianças andam tortas na rua, carregadas com livros novos e caríssimos que pesam na coluna e nos parcos orçamentos dos pais. Onde as escolas estão a cair de podres. Onde professores de Português dão aula de Biologia, e os de Filosofia dão de Matemática. Porque é assim. Porque há que poupar. Poupa-se nos custos, nas mentes, no futuro, e no carácter de cada um. Porque há corrupção, e os "grandes" precisam de diplomas rápidos para ganharem mais um abonozinho.

Onde quem trabalhou uma vida inteira não é respeitado. Onde quem quase já não tem anos de vida para gozar tem de continuar a trabalhar, quase até à morte. Enquanto que estafermos com tachos gigantes se reformam aos 40 com um ordenadão com o qual não me atrevo a sonhar.

Onde quem trabalha está constantemente a ser abusado. É cada vez mais difícil ver as despesas aumentar e o ordenado a diminuir. Já se reduziu tudo ao máximo. Já se puseram de lado os vícios, já não se bebe um copo, já não se vai à bola, ou se compra uma roupinha nova de vez em quando. Agora, é pagar as despesas e a comida, e está feito. Não há dinheiro para mais. Os filhos da puta do Governo acham que é a aumentar tudo que vão resolver os nossos problemas, e não vêm que estamos com um problema muito maior - o da sobrevivência, que é, a cada fim do mês que passa, uma luta mais acérrima.

Onde a saúde está no fundo do poço. Onde se paga "o cu e dois tostões" para qualquer assunto relacionado com saúde enquanto que as notícias que nos chegam de fora parecem uma utopia: consultas sem pagar? Remédios de borla? Apoio familiar grátis? Contas do Hospital irrisórias? Mentira. Aqui, basta entrar num Hospital e ver a vergonha que é o nosso sistema de saúde. É de um desrespeito, degradação e imoralidade indescritíveis. É rezar a todos os anjinhos para não se ficar doente, porque, meus amigos, isso significa - hipotecar a casa, vender a alma ao diabo, pôr o carro à venda no OLX, e perder horas, dias, meses de vida, com o rabo colado em cadeiras de espera, onde és apenas mais um no monte.

Onde abrimos as portas à dívida e à submissão. Pedimos dinheiro emprestado, e agora? Como é que o pagamos? Para onde é que foram os milhões que nos emprestaram? Como é que vamos apertar mais o cinto, se ele já não tem furos?

Onde, assim que acordamos, estão-nos a ir ao cu e a roubar-nos dinheiro.
Onde não há espaço para a cultura.
Onde os grupos de risco nunca estiveram tão em risco.
Onde milhares de empresas abrem falência todos os dias.
Onde vemos a nossa família e amigos partir porque aqui já não dá.

Onde a esperança morreu. 




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