Pessoas estranhas #6 - os guarda-costas do amor

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Na segunda-feira fui ao concerto de Machine Head no Coliseu de Lisboa e lembrei-me da existência desta profissão ingrata que são os guarda-costas do amor.

Eles abrem os braços à volta das suas namoradas, levam com a pancada toda por elas, protegendo-as do maldoso moshpit de forma heróica. Elas permanecem impávidas, serenas e incólumes no seu casulo fechado, abanando apenas levemente a cabeça, enquanto que os seus mais-que-tudo ficam o tempo todo a levar com a malta nas costas. Para além de não serem pagos por este trabalho (talvez um broche mais tarde se tiverem sorte, e elas não estiverem muito cansadas de abanar levemente o pescoço), ainda pagam bilhete para olharem pelas suas damas em perigo durante horas.

Está tudo errado aqui. Eles estão errados porque um concerto de metal é para se curtir à grande, para sentir o som, para fechar os olhos e deixar a música entrar no coração enquanto o diabo sai do corpo. É para suar os problemas do dia, expulsar demónios, gritar, pôr os braços no ar, ficar rouco, doente do ar frio lá fora. É tomar banhos de cerveja e do suor dos outros, ser selvagem e voltar aos tempos primitivos. Não é decerto para ficar ali estático de braços abertos para ninguém tocar na menina, não vá ela se despentear ou ficar com um dói-dói. Se estão à espera do broche de agradecimento, vocês merecem melhor.

Elas estão erradas porque se precisam de alguém que as proteja num concerto, é porque provavelmente não deviam lá estar. Ou pelo menos na frente. Isto é para conas bravas, não é para coninhas. E obrigarem, ou pedirem, ou admitirem esta protecção dos guarda-costas do amor não está certo. Cheguem-se para o lado ou para trás e deixem os homens ser livres e voar ou cair que nem passarinhos no meio das poças de suor, objectos perdidos, sangue e cerveja já quente.

Ou então arrisquem-se um bocadinho e deixem-se levar os dois pelo rumo da multidão. A vossa relação vai ser muito mais feliz, acreditem em quem tem conhecimento de causa. Quando caímos, caímos os dois, que é muito mais romântico.


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