A única vez em que usei saltos altos

terça-feira, maio 17, 2016

Ao ler isto lembrei-me da única vez em que usei saltos altos. Foi há uns 9 anos. Depois da faculdade estava num estágio não remunerado e um amigo que era piloto de aviões disse-me que ia haver concurso para hospedeiras de bordo na companhia aérea onde trabalhava. Pensei que viajar durante uns tempos e a ganhar bem seria brutal, nem que fosse só por um ano ou dois até conseguir trabalhar na minha área. Sabia duas línguas, tinha as medidas e peso exigidos e acreditava que passaria nos testes físicos. Incentivada pelo meu amigo, decidi ir à entrevista.

O problema foi a vestimenta. Sendo uma maria-rapaz, não tinha sequer uma saia para vestir. Lá fui comprar um fato de saia-casaco e uns sapatos pretos de salto médio, embora aqueles 6 ou 7 centímetros para mim parecessem a Torre Eiffel. Chegado o dia, o meu amigo estava de serviço e fui de autocarro. Chegada ao aeroporto, deparei-me com uma quantidade enorme de pavilhões e ruazinhas e andei um bom bocado de um lado para o outro pedindo informações até chegar ao local certo.

Por esta altura, claro que já estava aflita dos pés. Inexperiente como era e continuo a ser, não levei uns chinelos na mala, nem sequer pensos rápidos. Chegada ao local, entrei numa sala com dezenas de raparigas à espera e não havia nem um lugar para me sentar. Esperei, esperei, esperei, durante horas. A dor que tinha nos pés já me estava a fazer perder o juízo. Fui à casa de banho, descalcei-me e era sangue, feridas e bolhas por todo o lado. Quase chorei. Meti bocados de papel higiénico e voltei à sala de espera, mas já era demasiado. Não aguentei e fui-me embora.

Para além de ter sido a primeira e única vez que usei saltos altos, também foi a primeira vez que desisti de alguma coisa. Ainda hoje me pergunto onde poderia estar caso tivesse aguentado, mas nem vale a pena. Não fui talhada para estas coisas femininas. E ao ler isto fico triste porque não entendo a justificação da sociedade para continuar a dar mais valor às aparências do que ao trabalho, ao esforço e à dedicação. Os passageiros morriam se as hospedeiras usassem sabrinas? Os cafés deixavam de ser feitos se as secretárias usassem sapatos rasos?

Tanto se liga às aparências e esquecem-se que as pessoas de mau carácter que nos roubam todos os dias usam fato e gravata e sapatos a brilhar.


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