Pessoas estranhas #143 - os Bandidos do Cante

março 08, 2026


Têm-me dito que as músicas "alentejanas" têm dominado o panorama musical nacional e que é um exagero. Sobre isso, pouco posso dizer com propriedade - não oiço rádio, mal vejo TV, não sei que músicas andam a usar nas novelas ou nos anúncios (são essas que acabam por ser trauteadas de forma mais massiva). Sei que usamos e abusamos de fórmulas de sucesso e que isso tem atravessado gerações, mal ou bem. Neste ponto, não me sinto mal por ser auto-info-excluída, musicalmente falando.

Este ano também não vi o Festival da Canção. Acho que Portugal se posicionou mal e ficou do lado do agressor Israel, a fonte inesgotável de dinheiro ensaguentado - dispenso. Mas foi impossível fugir da informação de que ganharam os Bandidos do Cante. Já se esperava, são dos poucos que não se recusam a participar na Eurovisão e a contribuir para o problema. Fui ouvir a música. Não gostei. Mas não é isso que importa.

O que importa e o que é grave é eles terem dito que "a sua participação é musical e não política". Em primeiro lugar, nada na vida, absolutamente nada, escapa à esfera política. E logo a Eurovisão, que historicamente tem sido usada como plataforma para falar de direitos humanos, igualdade, emancipação, união dos povos, e no outro tempo também chegou a receber apelos a boicotes contra Salazar ou Franco. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, foram expulsos do festival, e bem. Enfim, não há dúvida que é um festival político, por mais que os próprios se queiram afastar da designação.
Em segundo lugar, têm "cante" no nome, e dizem eles que cantam cante, que é uma das formas musicais mais políticas que existem.

O cante cantou as dificuldades do trabalho na terra, suado e mal pago. Do abuso de empregadores, de papo cheio, enquanto o povo andava encurvado de sol a sol. Canta um tempo em que os alentejanos arranjaram mil e uma formas de fazer e aproveitar pão para fazer face à fome e miséria. O cante foi usado por movimentos anti-fascistas e uma forma de usar a melancolia que vem do âmago da pobreza. Contém em si uma resignação, e ao mesmo tempo a esperança de melhor. Por isso, virem estes rapazes que dizem cantar cante a demarcar-se de uma posição política, não só é inapropriado, como acho ofensivo.

Mudem o nome e digam que tocam baladas de amor com sotaque alentejano, que no fundo é o que fazem. Não quero ser purista e dizer que aquilo não é cante, porque os tempos avançam e as coisas mudam. A minha interpretação e a minha opinião como alentejana é que não é, mas façam o que entenderem. Não desvirtuem é este património imaterial da humanidade que vem de um lugar sofrido e de luta. Não promovam o desconhecimento e não desvirtuem todo um povo.

Lembro-me de, em miúda, em tascas e restaurantes, alguém, do nada, começar a cantar. Fazia-se um silêncio sepulcral, respeitador, como um ritual. Uns quantos velhotes, copinho de vinho carrascão na mão, uns mascando tabaco, muitos sem dentes da frente. Sem instrumentos nem microfones, projetavam a voz de um peito cheio que enchia o espaço e suspendiam o tempo. O ambiente ficava pesado, solene, mas nunca oprimido. Não consigo explicar. É esta a imagem que tenho, a imagem que levo, a imagem que promovo. Este novo cante versão pop terá o seu espaço, os seus fãs, e espero que tenham muito sucesso. A minha crítica é ideológica - custa-me que lhe chamem cante e se demarquem da sua raíz política tão facilmente.

Despeço-me com o cante [político] que eu sempre conheci.



No Alentejo eu trabalho
Cultivando a dura terra
Vou fumando o meu cigarro
Vou cumprindo o meu horário
Lançando a semente à terra

É tão grande o Alentejo
Tanta terra abandonada
A terra é que dá o pão
Para bem desta nação
Devia ser cultivada

Tem sido sempre esquecido
À margem, ao sul do Tejo
Há gente desempregada
Tanta terra abandonada
É tão grande o Alentejo

Trabalha homem trabalha
Se queres ter o teu valor
Os calos são os anéis
Os calos são os anéis
Do homem trabalhador

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