Pessoas estranhas #146 - Carlos Moedas na sua bolha

maio 09, 2026

Carlos Moedas é estranho por muitas razões, mas a que quero destacar hoje está relacionada com o facto de ser um lambe-botas para a classe endinheirada. Portanto, quer fazer favores, vénias e reverências a quem já tem muito e não precisa de ajudas.

O que me motivou a escrever é a imagem que partilho no fim do texto: vêem-se oito trabalhadores da Câmara (podem estar mais fora do plano) para alterar a calçada e colocar as letras JNCQUOI na Avenida da Liberdade, em frente a esse restaurante. Portanto, mais de um trabalhador para cada letra. Nem vou discutir o facto de ser ou não legítimo - por mim, não era, mas isso são outros assuntos. O facto é que não era necessário enviar tantos trabalhadores para colocar sete letras no chão. É claramente  uma demonstração de afeto, de camaradagem, para com os proprietários daquele espaço. "Estão a ver? O vosso amigo Moedas empreende esforços visíveis para vos fazer vontades". Ao mesmo tempo, os lisboetas estão fartinhos de apontar, diariamente, falhas nos passeios e calçadas passíveis de provocar contratempos sérios a quem anda a pé. Ele diz que a Câmara não tem meios para estar em todo o lado ao mesmo tempo, mas podem estar oito trabalhadores a colocar letras no chão para um restaurante de luxo. Claramente, quem anda a pé não é a prioridade.

A lógica é a mesma do piquenique chique que ocorreu a semana passada. As pessoas são livres de organizar os eventos que quiserem e até concordo que sejam autorizadas a usar o espaço público para as suas iniciativas privadas. O que não concordo é ainda receberem dinheiro público em cima disso. As empresas que se promoveram nesse evento chiquérrimo não precisavam desse dinheiro. É claro que, mais uma vez, os lisboetas manifestaram a sua inquietação. Vi pessoas, por exemplo, a dizer que as escolas onde andam os filhos têm falta de pessoal e a resposta que têm é que não há dinheiro - enquanto o dinheiro que pagaram a quem não precisa daria para contratar umas quantas pessoas para suprimir essas faltas.

Por estes dias, mais uma linda novidade - a Câmara Municipal de Lisboa isentou o Rock in Rio de pagar mais de 3 milhões de euros em taxas. Isto já não são trocos, é muito carcanhol. E nem entendo o motivo. O Rock in Rio, e a Medina, têm muito dinheiro e, mais uma vez, não precisavam desta ajudinha. Para além de ser incompreensível, é injusto para com os festivais mais pequenos, e outros eventos culturais de menor dimensão, que têm muito mais dificuldades em sobreviver e não lhes caem estes benefícios no colo.

Não nos esqueçamos da WebSummit - mais um evento de ricos e para ricos, que teve uma ajudinha de 7 milhões. No mesmo período, foi retirado à Carris o apoio previsto de 4 milhões. Que se foda o pobre.

Isto são apenas exemplos recentes, mas desde o início do seu mandato tem havido um esforço extra de Carlos Moedas para agradar às classes privilegiadas, tendo impacto direto no mercado imobiliário de Lisboa e no comércio local. As políticas para se construir mais um AL, mesmo que descaracterize a cidade ou mesmo desalojando habitantes muitas vezes idosos, são muito mais permissivas e flexíveis, e mais frequentes, do que as referentes a ter habitação a preços controlados. É uma forma de fazer as coisas que favorece o turismo premium e a fixação de imigrantes expats, brancos e endinheirados, também responsáveis pelo alto custo de habitação que vamos tendo (e não os mais escuros e pobres que muitas vezes levam com as culpas). E é também por isso que cada vez temos menos lojas históricas e mais lojas de conservas de sardinhas com carrosséis.

A questão de tirar árvores de um local emblemático e de onde elas são necessárias para fazer mais estacionamento, responde mais uma vez a necessidades de quem é privilegiado. A tendência nas grandes cidades europeias é para diminuir a circulação de carros e reforçar a oferta e qualidade dos transportes públicos. A maioria da força de trabalho necessária para fazer andar uma cidade grande não anda de carro, ao mesmo tempo que a presença de árvores é essencial para fazer face à poluição e criar sombras em cidades cada vez mais quentes. Portanto, tudo ao contrário. 

Quem fica contente no meio disto tudo são os proprietários, os donos de empresas ou os reformados americanos. Lisboa tornou-se branding, uma marca, um produto, à custa do trabalho de milhares que continuarão pobres. Um desequilíbrio que Carlos Moedas não quer ver ou não sabe ver, porque as bolhas de privilégio têm paredes grossas.



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