As coisas que se aprendem #115 - China e os doadores de órgãos involuntários

abril 30, 2026

Até há bem pouco tempo (2015), os condenados à morte na China eram a maior fonte de órgãos doados, sem existir propriamente consentimento. O princípio parece simples - já que iriam morrer, que dessem vida a alguém que precisasse. São pessoas que na generalidade são saudáveis e estão vivas, portanto, têm os órgãos em melhor estado do que, por exemplo, alguém que tenha tido um acidente violento e esteja num coma cerebral ou do que alguém que esteja a morrer de uma doença grave. Esta prática chegou mesmo a ser a maior fonte de órgãos para transplante no país, e também uma fonte, claro, de muito dinheiro envolvido.

É óbvio que esta é uma visão muito simplista, porque em termos éticos há muito a discutir. Pode alguém ser dador sem ter dado o consentimento? A partir do momento em que somos condenados perdemos o controlo sobre o nosso corpo? Será que há pessoas a serem condenadas injustamente para alimentar o mercado de transplante de órgãos?

Por estas e outras questões levantadas internacionalmente, o governo chinês alterou a lei e em 2015 e a doação passou a ser voluntária. No entanto, a Amnistia Internacional e outras organizações e investigadores acusam o governo chinês de falta de transparência e acreditam que ainda estão a fazer estes transplantes, por portas travessas, não só aos condenados à morte mas a outras populações vulneráveis. Em 2019, houve mesmo um estudo académico que denunciou manipulação estatística para esconder estes dados.

Apesar de ter uma das maiores populações do mundo, a China tem um dos menores tempos de espera para transplantes de órgãos, sendo que a população não é tendencialmente dadora. Alguma coisa tem de estar a acontecer. Tudo o que envolve muito dinheiro está mais propenso a deixar entrar a corrupção e a corromper princípios éticos. 

Desconhecia esta situação. Li sobre isso neste livro e fui averiguar se seria ficção, ou um exagero, mas não. É um tema controverso que dividirá opiniões, mas acho que todos concordaremos num ponto - se as diferenças religiosas, como andei a ler, eram motivo para esta condenação à morte e subjacente retirada dos órgãos, ultrapassa todas as barreiras éticas e toda a conversa prática que possamos ter sobre a legitimidade da prática. Quando a medicina se cruza com sistemas duvidosos, dinheiro e vulnerabilidade, a linha entre salvar vidas e violar direitos torna-se perigosamente ténue.



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