Pessoas estranhas #156 - O James Hetfield "apolítico"

outubro 19, 2026

Ainda ontem escrevi sobre uma banda que gosto que não tem receio ou pudores de manifestar a sua posição política. Hoje falo do inverso. Recentemente, James Hetfield, vocalista dos Metallica, disse num concerto que a banda, ao contrário de outros "entertainers" [dito de forma acusatória], não está ali para influenciar ninguém com "bullshit", referindo-se à política.

Quem não quer falar da sociedade, do estado do mundo, de política, durante os seus concertos está completamente no seu direito. Isso é ser apolítico, e é completamente aceitável. É uma escolha de cada um - tanto do artista em questão como em quem paga para os ver. Se vou ver Roger Waters, sei que ele irá falar de política. Se for ver Bizarra Locomotiva, sei que o Sidónio nem abre a boca para dizer boa noite. O consumidor sabe ao que vai. Escolher dizer que não se vai falar de política e criticar quem o faz, é em si uma posição política, portanto, é uma contradição. Quem quer ser apolítico, está simplesmente calado.

O busílis de tudo é ainda mais engraçado - os Metallica estão cheios de canções políticas. Ganharam muito dinheiro e construíram carreira em torno desse tema. "...And Justice For All" fala de corrupção, censura e de injustiça sistémica. "Leper Messiah" fala de controlo e ataca a exploração comercial da fé. "Disposable Heroes" é uma forte crítica à guerra e à desumanização de soldados. "One" retrata o terror da guerra e o sofrimento de um soldado mutilado. "Blackened" é sobre a destruição ambiental e a ameaça de um holocausto nuclear. "Shortest Straw" é uma crítica ao senador McCarthy, fervoroso anti-comunista. "Eye of the Beholder" fala sobre liberdade de expressão. "Fight Fire with Fire" é uma crítica à retaliação e destruição na guerra. Estes são alguns exemplos e mostram mais uma vez a contradição e incoerência.

Posto isto, das duas uma:

1) Ou os Metallica mudaram de opinião, e tudo OK. Nesse caso, o mínimo que podem fazer é deixar de fazer dinheiro à conta de um tema que "não é com eles" - deixem de tocar essas músicas ao vivo, e retirem-nas das plataformas pagas, por exemplo.

2) Ou escreveram, produziram e gravaram essas canções aproveitando o hype da época, sem realmente senti-las como verdadeiras - o que faz deles uns vendidos.

Eu adoro as músicas de Metallica, fizeram parte do meu crescimento e o meu gosto musical evoluiu à volta deles. Fantasiava muito com o James quando era adolescente. Até dei o seu nome ao meu gato. Mas isso não me torna cega e não vou dizer "amén" a tudo o que diz e faz.
Em relação ao frontman dos Metallica, acho mesmo que é melhor ele não falar de política, ou iria ficar ainda mais desiludida. Um daqueles casos em que "não conheças os teus ídolos" se aplica. O seu carácter já tem vindo a ficar mais duvidoso, devido a coisas como a caça grossa, o apoio à posse de armas, e gostou muito que a música de Metallica fosse usada para tortura a detidos no Iraque e Guantánamo.

Acredito que esta posição do James é mais pessoal e que fala mais em seu nome do que pela banda. Robert Trujillo, por exemplo, mesmo sem tomar partidos diretamente, criticou as políticas anti-imigração e mostrou preocupação com a pobreza. Kirk Hammett criticou duramente as posições de Trump sobre matéria climática e comparou-o aos regimes mais autoritários. Lars Ulrich teve abertamente uma posição contra o muro entre os EUA e o México, pediu maior combate às alterações climáticas e cuidados de saúde mais acessíveis.

Ser um humano decente não tem que ver com partidos. Ter voz e usá-la em nome da paz e de uma sociedade mais justa é normal e só o faz quem quer. Condenar quem o faz é ressabiamento. Quem não quer fazê-lo, que se mantenha na sua e está tudo bem. Os músicos não têm de ser ativistas. Siga em frente.



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