Um Difuso Sentir

segunda-feira, julho 20, 2009


"Ter uma ideia, um pensamento sobre o que nos aflige é estar longe dele. Sofrer é não pensar ainda, para fora do sentir as coisas num baque na alma. Mas pensar é ao menos ainda viver ao pé do que nos comove. Não me é fácil pensar hoje seja sobre o que for. Como água por borracha, as coisas passam por mim e deixam-me intacto. Que significa no fim da vida o que problematizámos na plenitude? O que ficou foi apenas um difuso sentir com um grande encolher de ombros no meio e um manguito na consciência."


Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 1"


Esta capacidade que nos distingue de todos os outros seres, a de pensar, é a possibilidade que temos de contactar com aquilo que ainda somos. É a expressão maximizada, a verdadeira, real, a não escoada nem censurada versão do Eu. É um agarrar à Terra, e um voar pelo espaço sideral. É o monólogo das ideias, um conflito pacífico, a plenitude do sentir. Mas é também o constatar mortífero e primeiro da desgraça. O esmagar do tédio sobre a mente. A percepção da degradação da envolvente.
Pensar faz de nós o que somos. É movimentar-mo-nos, falarmos, agirmos, opinarmos. No dia em que pararmos de pensar, é porque morremos. Na recta final, de que serve tudo o que pensámos... Esse verdadeiro Eu vai-se, como o corpo.
No meio da vida, fartos de pensar, encolhemos os ombros, queremos descansar de nós. Pensar é estar perto do que nos aflige, e isso é uma tortura consciente e da qual não podemos nunca fugir totalmente.
Dormamos. Sentindo a dormência, desviando as culpas, não é nada connosco.

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