Flores arrancadas à vida
março 12, 2026"— Todas as flores dos funerais estão mortas - explicou Helena. — No momento em que foram arrancadas à terra, perderam irremediavelmente a sua ligação ao mundo dos vivos. São espectros que murcham ao fim de uns dias. Eu amo demasiado a vida para ter flores mortas no meu túmulo. Se houver flores, que sejam em vasos e, depois, cada convidado pode levar o vaso consigo, ou vocês plantam-nos num local bonito, sei lá."
in E Se Eu Morrer Amanhã?, de Filipa Fonseca Silva (2023)
Nesta passagem, a protagonista octogenária conta à neta as preferências para o seu funeral. Encontrei uma afinidade - há muito que digo, para choque de muita gente, que oferecer flores é um atentado. Quem mo fizer, só o fará uma vez. Não há nada mais triste do que pôr flores num vaso em cima de uma bancada, arrancadas à sua terra e à vida, e vê-las definhar de dia de para dia, em poucos dias. É uma prenda inútil. As flores são lindas, sim, mas nos jardins ou nos vasos onde possam crescer, florir e morrer à sua vontade, conforme o tipo e a estação.
Por acaso, e contrariando um pouco a protagonista Helena, acho que a única ocasião em que faz sentido usar flores verdadeiras é mesmo num funeral. O percurso daquele corpo terminou ali, na sua última morada, e assim as flores que lá deixam em ramos e coroas vão definhar e morrer também, entregando-se uma última vez à terra, assim como o cadáver. É a única justificação - a poética - que pode fazer algum sentido.

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