Papelada

segunda-feira, setembro 12, 2011

"Perguntamos a uma pessoa de 60, 70 anos o que fez para não ter feito as coisas que achava essenciais aos 20 anos, e a pessoa provavelmente diz: não me lembro. Se calhar esteve a pagar contas de electricidade. É uma coisa assustadora, a papelada para uma pessoa estar viva. Apetecia-me muitas vezes dizer: não me chateiem, quero só estar vivo."


Gonçalo M. Tavares in "Entrevista a MilFolhas (Público), em 8 Janeiro 2005"


Ultimamente tenho-me preocupado bastante com o que fazer à vida. Estou constantemente a desejar que o tempo passe e que o relógio avance, para daqui a uns anos estar a desejar que o tempo pare e que o relógio retroceda. O ideal é que cada segundo de vida fosse celebrado, festejado, que desse um prazer imenso estar vivo, fazendo aquilo que se gosta, quando apetece, com quem desejamos.

Ora as papeladas desta vida não ajudam nada a este desejo. A partir de uma certa idade, passamos tanto tempo presos a burocracias, que só se ganham rugas, pés de galinha, dores de costas e outras maleitas. Não entendo para que é que tenho de preencher tanto papel, ir tantas vezes às Finanças, à Câmara, à Loja do Cidadão e mais o raio que o parta, perder horas da minha vida e da minha juventude, saliva e sanidade, para estar em conformidade com o que alguém estabeleceu, passando pelas frondosas filas e gentes antipáticas deste planeta. Terei 70 anos e não me lembrarei do que fiz aos 20, porque foi dentro de quatro paredes brancas e com cheiro a suor, em gabinetes apertados, filas intermináveis e bebés a chorar, que passei uma boa parte da minha juventude, nada memorável.

E em vez disso poderia ter estado a jogar à bola na praia e a atirar areia para cima do cabelo de alguém, fugindo de seguida, como se fosse escapar, por entre risos que ficam para sempre.

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