Autocadáver

quarta-feira, maio 30, 2012

"Absorta, constata que não morreu mas não está mais forte coisa nenhuma. Todos os dias o quer deixar sabendo que não o deixará. Todos os dias repete que será impossível perdoar-lhe, sabendo que, mesmo sem perdoar, permanecerá.
Como é que dizia o poeta? Autocadáver."

Rodrigo Guedes de Carvalho, in "Canário"

Somos tão fracos. Repetimos em frente ao espelho que caso algo nos aconteça, fazemos assim ou assado. Que se for connosco, não admitiremos. Seguiremos em frente sem olhar para trás e sem dificuldades. Dizemos aos outros: ai, se fosse comigo... O tanas. Somos todos iguais, e todos fracos. Somos pisados, e ficamos. Somos desrespeitados, e ficamos impávidos. Gozam com a nossa cara, e continuamos aqui. Achamos sempre que é tarde demais para mudar. Tarde demais para lutar, para dizer basta.
Mas não somos parvos.
Sentimos a nossa fraqueza e a vergonha que dela advém. A humilhação.
E uma pessoa que passou a vida a enganar e a esconder tem uma certa experiência na coisa. Sente à légua que algo foi escondido debaixo do tapete. Não é preciso dizer-se nada. Sente-se, sabe-se.
Por isso, a quem constantemente atira areia para os olhos, fica o aviso: eu sei. E ainda aqui estou. Feita parva. Mas consciente de que sou mesmo parva. Até me arrepender. Morta e desenterrada, autocadáver.




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