Guerras do condomínio

terça-feira, outubro 02, 2012

Ter sido obrigada a ser administradora do condomínio é das piores merdas que já me aconteceu. Já passaram 9 meses e ainda não me habituei a ter a 3ª idade a bater-me à porta sempre que me preparo para fazer alguma coisa, tal como jantar, arrear o calhau ou tomar banho. E como se não bastasse os assuntos relativos ao condomínio, tenho de ouvir a história das artroses, das próteses dos dedos, gases, queda de cabelo, queixinhas, enquanto faço um "hum hum" super interessado. Pois esta é a história da última vez que me bateram à porta. Saliento que eu tinha acabado de pôr uma máscara de argila e tinha a cara verde.

Eu - Boa noite.
A vizinha - Então menina. Eu hoje estou muito perturbada. Nem consigo comer, regurgito a seguir... (leva a mão à cabeça e faz voz trémula para mostrar a sua "dor"). Não é que faleceu o senhor do rés do chão? Ele já não mora cá há anos, a casa está vazia... mas gostava tanto dele. Até tenho as chaves da casa e tudo, para emergências. Ele de vez em quanto vinha aí, passava de carro, e eu olhava lá para dentro, o homem andava branco. Sabe, ele tinha qualquer coisa de cancro. Ultimamente já lhe faltava o cabelo, estava muito magro e branco. Ontem acordei com pus na unha do pé (e foi neste ponto que a minha atenção se desvaneceu). Nem conseguia pôr o pé  no chão. Umas dores, umas dores... Ainda por cima o meu médico estava de férias (sorte a dele). Está a ver o penso que tenho na unha? (e a senhora levanta-o para ficar o mais perto possível da minha cara). Lá me arranjaram isto no centro de saúde, a médica tirou-me o pus todo... se visse o que saiu, já estava verde. Depois vim assim a coxear até casa. Só de subir até à sua casa já me está a doer... Isto até me mete maluca... Sabe o que eu fiz a seguir? Queria ligar para a minha irmã, mas enganei-me e liguei para o filho do vizinho, que tenho aqui gravado no telemóvel. Ele deu-me o número há muito tempo, quando eu ia lá a casa ajudar. Sabe que ele tem asma? É por isso que a casa está vazia. Por mais que se limpe, aquilo tem sempre muito pó. E a irmã dele também tem asma. Não podem morar ali. Eu bem que assisti aos ataques deles, pois assisti. Uma aflição! Mas pronto, enganei-me no número e liguei para o filho do vizinho, mas quando me apercebi que não estava a ligar para a minha irmã, desliguei a chamada. Uma parvoíce! Daquelas coisas que uma pessoa faz sem pensar. Podia muito bem ter deixado o telefone continuar a chamar e cumprimentá-lo. Não fazia mal nenhum. Depois aquilo fiquei com peso na consciência e fiquei a pensar que eles ainda iam ter uma imagem errada de mim. Então depois de me terem arranjado a unha, ai que dor, telefonei para o rapaz, pedi desculpa por ter telefonado e ter desligado, mas que me tinha enganado e não foi por mal. Mas achei-o assim... murcho. Ele é uma pessoa tão alegre. Lá perguntei o que se passava e ele disse que o pai tinha ido a enterrar... Ai filha... parou-me o coração. Fiquei sem saber o que dizer e com o coração despedaçado... coitado do homem. E eu agora tenho a chave da casa dele e não sei o que hei-de fazer com ela... queria ligar à irmã dele, que é quem está mais ligada à casa, mas não tenho o número. Por isso vim ter consigo, tem aí os contactos nas folhas?
Eu - Não. Isso deve estar na arrecadação nos materiais antigos.
A vizinha - Ai... Eu com esta unha... não consigo ir à arrecadação. Ai, que dói tanto. Mal me consigo mexer. E andar lá a procurar aquilo, toda dobrada... não sei...
Eu - Vou lá amanhã, está bem? (e nisto, antes que a conversa continuasse, gritei para o meu namorado, que estava na sala, a perguntar se o  jogo já tinha começado. Não havia jogo nenhum, era suposto que ele dissesse que sim para me safar. Mas claro que respondeu "QUAL JOGO?" e a minha estratégia foi por água abaixo).

Nisto seguiu-se mais uns cinco minutos de conversa sobre dores, até que uma outra vizinha apareceu, deve ter olhado para a minha cara verde de argila e pensado que eu já estava verde de enjoo de ouvir a outra senhora, e levou-a arrastada por um braço. Se calhar pensou que tenho alguma doença venérea, mas isso era o que me dava jeito, podia ser que me largassem a braguilha. O que me custa é ter perdido tanto tempo da minha vida, numa conversa que podia ter sido assim:

Eu - Boa noite.
A vizinha - Boa noite. Tem as folhas dos contactos consigo?
Eu. - Não. Estão na arrecadação. Vou procurar e levo-lhe amanhã, está bem?
A vizinha - Ok. Até amanhã!

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