Tenho pena

sexta-feira, outubro 05, 2012

Tenho pena deste país e de todos nós. Ainda há poucos anos atrás me restavam alguns sonhos. Guardava para mim coisas que queria fazer num futuro próximo, e até realizava algumas. Era possível fazer planos e acreditava que iria ser sempre assim. Sem pensar muito alto, mas voando de vez em quando, dando a ideia de que era livre, de que podia, que tudo era realizável. Agora, até tenho medo de ligar a televisão, o rádio ou ler os jornais. Cada dia é um passo atrás naquilo que conquistámos e naquilo que trabalhámos. Ninguém está satisfeito, todos têm razões de queixa, e esse passou a ser o tema de conversa. Não as viagens que queremos fazer, os concertos que queremos ir, os livros que queremos ler, mas sim em como vamos sobreviver. Em cada canto, as conversas variam em como se tem de mandar os filhos para a escola com roupa emprestada e sandes de manteiga em vez do almoço, em como já não se consegue poupar e contam-se os tostões até ao final do mês, em como as reformas dos nossos pais já não chegam para comer, ou em como já não se vai jantar fora ou beber um copo há meses porque simplesmente não se pode. Estamos na penúria, preocupados com as coisas erradas. Eu estou preocupada, porque não sei quando irei poder planear outra vez, sentir-me livre de tempos a tempos para sair fora desta realidade, e espero atentamente o momento em que atingiremos o fundo do poço, porque aí já saberei que não poderemos descer mais e respirarei aliviada.
Tenho muita, muita pena, que em vez de viver, estejamos a lutar pela sobrevivência, adiando tudo aquilo que queremos enquanto envelhecemos e nos tornamos amargos e desconfiados. Para mim, o que era já nunca, infelizmente, voltará a ser.


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