Sem filhos, sem cadilhos

terça-feira, outubro 08, 2013

Há uns dias atrás fui crucificada pela minha avó. Foram apenas quatro palavras mas proporcionaram-lhe o maior choque desde que o aborto foi legalizado. "Não gosto de crianças". Esta frase serviu para me deserdar, me advertir que vou para o Inferno, para dizer que preferia que eu fosse lésbica, entre outros mimos. Ainda foram acrescentadas as "verdades" que dominam a vida da minha avó, suas vizinhas, amigas, e afins:

"Todas as mulheres têm de gostar de crianças."
"Só estamos neste mundo para ter filhos e prolongar as gerações."
"Quem não gosta de crianças não tem coração."

E eu digo que pensava que já não existiam pessoas assim. Pessoas que têm a certeza que as mulheres são parideiras com obrigação de usar os ovários, procriar, parir, e fazer disso o centro da vida delas. Respeito quem o queira fazer - nada contra - mas há que respeitar todas as opiniões e modos de vida. Há quem não nasça para ser mãe ou pai, que não sinta qualquer necessidade ou chamamento, que não tenha relógio biológico, e quem não se enterneça ao ver imagens de bebés ou os filhos dos amigos.

Quero ver o mundo inteiro, ver concertos em todos os Continentes, não ter horas certas ou sítios para estar, embebedar-me quando me apetecer, mimar-me e mimar quem gosto, acordar às horas que entender. Não quero ter quem dependa de mim - quero ser livre. Sou egoísta? Sim, sou. E depois? Há quem seja egoísta, há quem seja estúpido, burro, insensível, sacana, puta, corrupto, inútil, eu só sou egoísta.

Não vejo um futuro que implique trocar fraldas, contar os trocos para poder dar tudo a uma criança, passar a ver desenhos animados todo o santo fim de semana, ver os meus horários todos trocados e dependentes de uma criança, nem me interessa nada, absolutamente nada, que um bebé possa trazer à minha vida.

O som do choro de uma criança num estabelecimento qualquer é razão para eu voltar para trás. Não vejo filmes de animação no cinema porque estão lá as pestes. Quando tenho de estar no mesmo local que um petiz, vejo-me obrigada a colocar os phones e a música no máximo. Por isso, quando me dizem que isto vai mudar e que vou sentir a vontade de procriar, mais dia menos dia, não consigo acreditar.

Lamento avó, pais, tios e primas que contavam com o prolongamento da geração aqui do meu lado. Deviam-me ter dado irmãos para que a sorte ditasse que um deles tivesse coração.


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