A morte dos adjectivos não é nada top

quarta-feira, abril 27, 2016

A juventude inventa com cada moda... Agora é "top" para aqui e "top" para ali. Tudo é top. Comer pizza é top, ir aos festivais é top, roupa da Primark é top, o Agir é top, mostrar as bordas do cu é top, beber até cair é top, ficar prenha aos 15 é top.

Com tanto "top" confirma-se a morte dos adjectivos. Já não existe o agradável, o supremo, o belo, o requintado, o bonito ou o abismal. Foi-se para sempre o emocionante, o engraçado, o aprazível, o amável, o atraente e o encantador. Já nada é importante, simpático, interessante ou intrigante. Tudo é, simplesmente, top.

Cultivem a vossa língua, enriqueçam o vosso vocabulário. É preferível ter a boca suja de asneiras do que só saber uma palavra estrangeira e que pelos vistos desconhecem o significado. Pelo menos que dissessem que Fernando Pessoa é top, ou que Eça é top. Já ficava meio alegre se afirmassem que "O Padrinho", o "Pulp Fiction" ou o "Fight Club" são top. Mas não. Top é usar soutiens almofadados para dar a ideia de que têm mamas top. Top é conseguir sacar o número daquele gajo top. Top é usar um top dos Ramones sem saber quem eles são. Ter um iPhone com bué net é top.


Top era eu conseguir dar uma chapada a toda a gente que dissesse top. Ou melhor, cada vez que dissessem "top" tinham de ler uma página de Vergílio Ferreira. Não é uma ideia top?






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6 comentários

  1. Nunca li Vergílio Ferreira, mas prometo ler uma página por cada top que eu me apanhar a dizer :-)
    As modas, até as das palavras, são cíclicas. Mas tratamos mal a nossa belíssima língua, é verdade sim senhora (ainda bem que convivo pouco com a faixa etária top)

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    1. Há modas que passam depressa, outras infelizmente vão ficando, como o "tipo"... Vamos ver o que acontece ao top :)

      Infelizmente também, não é só às gerações mais novas que ouço o top, o que é assustador. Pelo menos fica o desafio do Vergílio, acho que vai gostar :)

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  2. Há uma moda que eu até acho piada ouvir: "ser/estar muito forte em". No seu uso irónico.

    Exemplo : Sou muito (ler muitaaaa) forte em redes sociais.

    ...

    Top não é nada top. É brega (brega não está na moda pois não?).

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    1. Algumas modas são porreiras e têm piada, mas não acho piada é quando uma palavra só substitui dezenas delas sem um significado objectivo. Imagina os viciados no "top" a irem a uma entrevista e faltarem-lhes as palavras. "Sou um engenheiro mesmo top!", "Falo francês mesmo top!"

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  3. Estou a ler "Ilhas na Corrente" do Hemingway e às tantas no livro, que é o último do autor, um dos filhos do personagem principal conversa com o pai sobre o "Ulisses" do Joyce e a invenção das palavras por parte deste escritor, o diálogo é sublime e o jovem personagem até pertence à geração do "top", mas do século passado, esses jovens que se interessavam pelas "coisas" das letras. Concordo com o castigo de lerem Virgílio Ferreira, mas o problema é que eles já nem sabem ler.
    Gostei imenso do post.
    PS-"Intriga ao Amanhecer" de Hemingway não foi revisto pelo escritor.

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    1. Que boa coincidência :) Vou colocar essas sugestões na minha lista de leituras.

      É verdade, quando contacto com familiares das gerações mais novas (e até menos novas, já na casa dos 20's) e lhes pergunto o que andam a ler, riem-se na minha cara e até já me responderam cheios de orgulho que nunca leram um livro que não fosse obrigatório no secundário. É preocupante. E é uma pena. Assim não admira que os "tops" e os "tipos" se proliferem.

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