Feliz de quem se está a borrifar

sexta-feira, abril 29, 2016

Quem tem por hábito ajudar os outros, sejam pessoas, animais ou quem apoia qualquer causa humanitária ou ambiental, não tem descanso.

Quem se decide dedicar a causas, está perdido. Nunca há dinheiro suficiente para ajudar toda a gente, nunca há tempo suficiente para acudir a tudo. E mesmo quando finalmente se chega a casa, estafados, e podemos e devemos descansar, a cabeça não pára de trabalhar.

No meu caso, que ajudo os animais, não consigo virar as costas, não consigo parar de pensar nos casos que vão aparecendo todos os dias, nos que sou impotente para fazer algo. Não consigo descansar sabendo que há bichos que passam fome, que são maltratados sem compreenderem o porquê, que são deixados em varandas noite e dia, que são abandonados pela suposta família, que estão expostos aos elementos, que estão doentes, sozinhos. E depois, como se não bastasse, ainda aparecem energúmenos que atiram cães de pontes, que amarram cães a carrinhas e os arrastam pela estrada, que queimam gatos em "festas", que usam cavalos e burros até estes caírem para o lado e morrerem, e que se metem numa arena a espetar-lhes bandarilhas.

Não dá para ir um dia para a cama sem dar voltas e voltas a pensar na crueldade das pessoas sobre os animais, ou sobre as coisas que acontecem, as merdas do destino que volta e meia nos coloca à prova. E com as outras causas é igual. Para quem apoia os sem-abrigo, famílias carenciadas, crianças doentes, mulheres maltratadas, menores em perigo, idosos, e muitos outros, a história é a mesma. Damos muito de nós e às vezes não sobra grande coisa. Nem estômago, nem cabeça, nem lágrimas.

Felizes são aqueles que se estão a borrifar. Por vezes invejo-os, mas é só por uns segundos. Nesses momentos, gostava de não me ralar com nada, de guardar o dinheiro e gastá-lo comigo, de ter imenso tempo para mim, de ter a cabeça limpa de preocupações, de olhar para o lado, de não sentir dó e compaixão que fizesse doer à séria. Mas depressa caio em mim. Sou mais humana assim, sou eu, tenho um propósito e não o trocava por nada.

Um grande bem-haja, um xi-coração do tamanho do mundo a quem se preocupa. A quem tira o cu do sofá para fazer alguma coisa por alguém. A quem lhe dói o coração pelos outros, a quem sofre por desconhecidos, a quem tem empatia, essa qualidade tão delicada, faca de dois gumes que tanto nos mete no píncaros do mundo como lá em baixo, no fundo, tantas vezes. Vocês são os maiores. O mundo não está completamente na merda porque vocês existem.


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7 comentários

  1. Mesmo que quisesse (e não quero!), seria impossível mudar.
    Às vezes dói, e muito, mas seria ainda mais doloroso nada fazer. A indiferença mata, se não o corpo, pelo menos a alma.
    Um abraço enorme também para ti, que sofres do mesmo "mal" ;)

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    1. Obrigada*
      A indiferença não é opção. Mas há momentos em que se fica tão cansado, e em que se vê tanta violência e tristeza, que é muito difícil voltar a sorrir. E depois ouvir coisas como "porque estás assim? são só animais" ainda me deixa mais revoltada. O resultado é isolar-me também das pessoas.

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    2. Não ligues a quem diz isso. Para essa gente, sim, podes usar a indiferença. Também o ouço muitas vezes, mas consola-me saber que, por cada pessoa que o diz, há outra que pensa e sente como eu ;)

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    3. Essa cena do são só animais é que me fascina. Conheces mesmo pessoas que dizem isso? É uma coisa inacreditável. Juro-te que se não fosses tu, nem sabia que pessoas assim existem.

      Não sei até que ponto é que as pessoas más, não são fruto dessa indiferença do "ah são só animais". E pior...este vídeos todos chegam a milhões de visualizações, se for preciso ainda dão lucro a quem faz a atrocidade...portanto, começo a pensar que o desafio é deixar de alimentar estes comportamentos.

      Na realidade TODOS somos só animais...mas parece que andam por aí umas quantas BESTAS.

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    4. Outra boa é "com tantas crianças a morrer, porque é que te vais preocupar com os animais"?, que também é linda. Engraçado que quem faz estes comentários não mexe uma palha para ajudar ninguém, porque se fossem altruístas iam compreender que há espaço para ajudar tudo e todos. Se todos fizessemos um bocadinho em vez de mandar bocas, estava o mundo um lugar suportável.

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  2. A forma como tratamos um animal reflecte de imediato o ser humano que habita em nós.

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    1. Pois é, e por aí podemos ver a podridão de muitos humanos que se acham no topo do mundo :(

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