As coisas que se aprendem #112 - cipaios
abril 12, 2026"A fim de evitar que a província se sublevasse e reeditasse uma qualquer revolta de cipaios, as instruções eram não esmagar pessoas de mais sob as patas dos cavalos."
in Peabody Ajoelha, de Patrick Boman (2000)
O livro é ambientado na Índia Britânica, onde até 1947 a Coroa Britânica deteve o domínio imperialista sobre o subcontinente indiano. Foi uma época marcada pelo desenvolvimento de infraestruturas, mas à custa da exploração económica intensa, fome e repressão. Também à custa, sei-o agora, de cipaios, locais que foram recrutados ao serviço do colonizador. Nunca foram tratados como iguais, foram frequentemente bodes expiatórios e maltratados, embora o seu papel fosse defender exatamente o mesmo que os brancos bem alimentados, seus superiores, defendiam.
O termo, embora amplamente associado a este imperialismo britânico, não é seu exclusivo. A segunda definição de cipaio lembra-nos que o mesmo acontecia nas colónias portuguesas. Os africanos locais que combateram ao lado dos portugueses são até muitas vezes esquecidos pela História e remetidos para um segundo plano. Acho particularmente irónicos os discursos baseados num "vai para a tua terra", quando sabem perfeitamente que fomos nós que fomos para a terra deles tirar-lhes o que tinham e explorá-los até ao tutano.
No fim, os cipaios ocupam um lugar ingrato na História: essenciais para a máquina do poder, mas raramente reconhecidos como mais do que instrumentos dela. Tiveram um papel altamente relevante em conflitos e domínios por todo o mundo, muitas vezes sob violência, ameaça e repressão, mas que tinha de ser feito em nome da sobrevivência.

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