Livros bacanos #8 - Herscht 07769, de László Krasznahorkai (2021)

abril 13, 2026

A trama centra-se em Florian, um bom gigante, alto e musculado por fora, mas um pouco lento por dentro. Não é claro se está no espectro do autismo ou se tem alguma outra condição, mas sabemos das suas dificuldades em ver as coisas mundanas como os outros e em concentrar-se e obter lógica das situações mais ou menos naturais. Toda a gente em Kana simpatiza com Florian, até porque a sua força bruta é extremamente útil em várias situações, e não veem qualquer maldade ou má vontade da sua parte.

O mesmo não se pode dizer do seu patrão - Boss é o líder de um grupo neo-nazi que inspira medo e desconfiança na comunidade, e ninguém compreende como é que Florian o segue tão cegamente. Para ele, o Boss é alguém que lhe deu emprego, confiou nele, arranjou-lhe uma casa e lhe permitiu ter dignidade. Quanto às outras atividades de Boss, Florian não as consegue interpretar como os demais nem obter sentido nelas dentro da sua natureza delicada.

Ao ouvir as aulas de física do seu amigo Dr. Köhler sobre a matéria e anti-matéria, Florian entra em pânico - tem a certeza que o fim do mundo está perto. Na sua cabeça, só existe uma solução - tem de informar a chanceler alemã Angela Merkel do que vai suceder para que as mentes mais brilhantes se reúnam. Começa a escrever-lhe cartas, e mesmo perante os avisos do Dr. Köhler, dos seus vizinhos e amigos, insiste no tema, tornando-o a sua obsessão pessoal.

Não foi fácil encarrilar na leitura do livro. Não existe um único ponto final (apenas vírgulas), marca distintiva do autor vencedor do Nobel da Literatura em 2025. Também não existem parágrafos. Portanto, as letras são como um bloco maciço e torna-se cansativo visualmente. No entanto, quando os olhos e a mente se habituaram, tornou-se fluído, e mais, tornou-se genial. A mudança narrativa, de personagem, de local, de ambiente, de sentimento, sem existência de pontos finais ou quebras, e de forma tão natural, só está ao alcance de génios. Eu, que comecei chateada e com dores de cabeça, acabei absolutamente rendida ao estilo do autor.

E não é só o estilo mais gráfico da escrita. A construção de personagens (e são tantas), a profundidade que nos é dada, as várias camadas, o entrelaçar de vários tempos e locais, as mudanças de voz (que podiam ser bruscas e tornam-se naturais), fazem do todo uma obra ainda mais valiosa. Paralelamente à ação principal, também o ambiente político, as alterações climáticas ou as melodias de Bach têm o seu espaço e contribuem para uma paranóia social, que é séria mas que também proporciona momentos cómicos.

Muito haveria para dizer e esmifrar sobre este livro, e mesmo assim seria redutor perante a riqueza página após página. Para mim foi como um rio, sempre a correr, forte, longo, necessário, que culmina numa cascasta completamente inesperada, uma estocada final que não me passaria pela cabeça. Não é uma leitura leve, exige entrega, mas prometo que compensa. O melhor livro que li este ano.



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