Compaixão Perversa

quarta-feira, maio 13, 2009


"O prazer de maltratar outrém é distinto da crueldade. Esta consiste em encontrar satisfação na compaixão, e atinge o ponto culminante quando a compaixão chega a extremos, como quando maltratamos os que amamos; todavia, se fosse alguém, que não nós, a magoar os que amamos, então ficávamos furiosos, e a compaixão tornar-se-nos-ia dolorosa; mas somos nós a amá-los e somos nós a magoá-los... A compaixão exerce uma infinita atenção: a contradição de dois instintos fortes e opostos actua em nós como atractivo supremo."


Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'



Magoar alguém é um dos poderes mais perversos com que podemos lidar. Magoar os que estão perto, os que gostamos, é uma forma de vermos aplicado o nosso poder, de forma fácil e rápida. Elixir, injecção de gozo promíscuo e cruel e, no entanto, um rubro de satisfação na face por se ter conseguido chegar a esse ponto. O depois até pode ser o descalabro, mas só o facto de se ter chegado lá é o tal "atractivo supremo" entre dois mundos opostos, entre instintos animais de subir uma escada invisível, numa escala não tão invisível, pairando confortavelmente num limbo que nos diz que alguém se sente afectado, e nos é devolvido um grau gratificante de satisfação.

E quando, sobretudo, nos amamos a nós próprios, terá de vir o deus ou diabo escolher a metamorfose constante entre o bem e o mal.

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1 comentários

  1. Magoar aqueles que nos são próximos, dos quais gostamos é a única possibilidade. São os únicos que o podem ser, são os únicos interessados. E é mesmo uma forma de poder. Esticar até ao limite, saber até onde podemos ir. Até um dia.

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