Maldade

quarta-feira, maio 23, 2012

"E assim se ignora que a gorda a última coisa de que precisa é que lhe digam que é gorda, porque ela sabe que é gorda, ela sabe, não sabe ela outra coisa de manhã à noite, e ainda que durma, todos os pesadelos se mexem nessa condição a que não consegue fugir, acorda e não se quer ver, sou gorda, e não quer sair porque haverá sempre alguém que ao olhá-la, ainda que nada diga, é como se dissesse és gorda, daí que não se lembra a uma gorda que é gorda, pela sua absoluta maldosa inutilidade. (...)
Somos primeiro corpo, e no corpo nos concentramos no que tivermos de pior."

Rodrigo Guedes de Carvalho, in "Canário" (2007)



Somos maldosos. Picamos os outros com aquilo que têm de diferente, aquilo que achamos ser o seu maior defeito. Não precisamos de dizer à gorda que tem peso a mais, ao aleijado que tem uma deficiência física, ao maneta que lhe falta uma mão, à magricela que se lhe vêm os ossos, ao careca que não tem cabelo, ao anão que é baixinho. Eles sabem-no e já têm de lidar com isso todos os dias. A nossa necessidade de superioridade traz ao de cima a pior mesquinhice.

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