O gajo que levou o meu avô...

sexta-feira, maio 18, 2012

... devia morrer. Porque desde o dia em que ele disse "Vamos lá a ver se acerto no velho", e acertou mesmo, tudo mudou. Porque desde o dia em que ele vinha da discoteca, cocainado e histérico, e lhe fez pontaria, tirou uma vida, e uma grande parte da nossa vida foi-se. Era o dia em que, avô, eu te ia levar a dar uma volta porque tinha acabado de tirar a carta. Foi um domingo que começou com o pior telefonema da minha vida. Para ti, era um bom domingo, foste andar de bicicleta com o teu clube, e de uma fila de 20, eras o último. Tiveste azar, tivemos azar, mas se não fosses tu era o puto que ia à tua frente, e que ainda hoje sente o peso de não ter sido ele, e todos os anos faz parte da comitiva que faz o troço onde tu morreste, avô. Sim, todos os anos és lembrado e homenageado por aqueles que iam contigo e muitos mais, que montam a bicicleta e se lembram de ti, um dos melhores ciclistas que conheceram. As centenas de quilómetros que fazias por dia não combinavam com os teus sessentas e tais, eras uma força da natureza, um atleta nato, um engenhocas, um construtor. E hoje não consigo montar a bicicleta porque foste tu que ma deste. Porque foste tu que me ensinaste a andar, que me fizeste cair e levantar, que me tiraste as rodinhas, que me enchias os pneus e punhas óleo e correntes novas. Que nos Natais me oferecias um cantil para a bike, do Benfica, cheio com Ferrero Rocher's e uma nota de 20. Que construiste uma bicicleta com 2 lugares e andávamos juntos, orgulhosos e felizes. Acolheste-me todos os dias na tua casa porque os meus pais não podiam. Ias ver os meus jogos e os meus treinos. Aliciavas-me a beber um copinho de vinho e gozávamos com as pessoas juntos. Tomávamos banhos de sol no quintal para ficarmos muito morenos. Jogávamos à bola e tantas vezes me arreliaste por partir coisas com ela e mandá-la para os telhados vizinhos, fazendo-te armar em super-homem para a ir buscar. Eras o Super-Homem. Passaram 6 anos. E ainda me vens à memória tantas, tantas vezes. E em cada uma delas, choro, e desejo que esse filho da puta morra. Acontece que ele é filho de gente importante e a justiça protege os endinheirados e populares. Tenho saudades tuas, e queria muito que me visses agora, que me conhecesses agora, queria mostrar-te a minha casa nova, contar-te do meu trabalho, fazer uma última volta de bike contigo, lado a lado, calados, apreciando o pôr do sol.

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