Não quero chegar a velha

terça-feira, agosto 05, 2014

Um dos vídeos que anda na berra mostra uma filha que filma as suas conversas com a mãe, de 93 anos, que sofre de Alzheimer há 11.

Admiro realmente quem consegue lidar com esta e outras doenças que marcam os nossos dias e ensombram cada vez mais velhices que deviam passar docemente e sem problemas. Eu não seria capaz. Tanto de ser a filha, que deixa tudo para trás para estar com alguém que não sabe quem ela é, como ser a velhota, que não faz ideia do que está a fazer neste mundo. Se estivesse nesse estado e tivesse um segundo de lucidez, usava as poucas forças para tentar tirar a própria vida. Não suportaria que alguém cuidasse de mim como se fosse um bebé, que deixasse de ter vida para ma dar, a mim, que estaria já tão perto da morte.

A partir do momento em que dependa de terceiros para me lembrar como me chamo ou que tenho de comer para não morrer, para me limparem o cu ou as feridas do meu corpo inerte, prefiro não estar cá. Isso não é viver. Não será no fim da vida que deixarei para trás a minha independência e dignidade. Ninguém me deve nada. Não façam isso por mim. Eu não quero.

Espero que as coisas tenham mudado na altura em que eu atinja a velhice (se lá chegar). Hoje ser velho, deficiente ou debilitado é não ter escolha. A eutanásia ainda é um tabu. Escolher tirar a própria vida é cobardia ou heresia. Deveria existir um serviço que registasse as nossas vontades e fosse obrigação legal fazê-las cumprir. "Se, depois dos 70, sair à rua toda nua e andar atrás de meninos pequenos, por favor ponham-me a dormir para sempre" seria um exemplo do meu testamento da vontade - já lhe dei nome e tudo.

Há muitas outras hipóteses na manga para o nosso futuro, como a regressão da idade ao estilo Benjamin Button, mas até lá só consigo pensar que deverei proteger as próximas gerações da velha crazy que me estou a ver a tornar.


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