Livros bacanos #11 - Querida Tia, de Valérie Perrin (2024)
junho 20, 2026Agnès recebe um telefonema que vai mudar a sua vida: dizem-lhe que a sua tia morreu. No entanto, a sua tia morreu há três anos. Fizeram-se as exéquias, o funeral, o luto. E agora dizem-lhe novamente que ela faleceu. Será um engano? Uma brincadeira? Um embuste? Estará alguém desconhecido na campa da tia?
A sobrinha larga tudo e segue para Gueugnon, terra onde a tia Colette viveu toda a vida como sapateira, e onde Agnès passava as suas férias de verão, fez amigos e memórias por entre o cheiro a graxa e couro. Aí, depara-se com uma caixa repleta de cassetes áudio gravadas pela tia, dirigidas a si. Então começa a descoberta - não só da razão de todo o mistério, mas também da história de Colette. Agnès sempre viu a tia como alguém de poucas palavras e de pouco passado, e descobre que as vidas dos outros são muito mais profundas do que aquilo que se pode ver à superfície.
A sua própria história e a sua vida também são postas em perspetiva com as descobertas, levando Agnès Septembre numa viagem emocional capaz de abalar todo o seu mundo. Após a morte dos pais, da dupla morte da tia e do divórcio difícil, sente-se como à beira de um precipício, e não só - ela está em perigo real.
É o quarto livro que leio de Valérie Perrin e digo-o sem hesitações: é uma das melhores contadoras de histórias da atualidade. A sua prosa é intricada, delicada, suave, mas forte na forma como nos agarra, como constrói os laços entre as personagens, como as humaniza. A narrativa alterna entre a voz do passado e do presente, com diferentes narradores, numa viagem aos confins das nossas origens e do porquê de sermos quem somos. Uma capacidade extraordinária de transformar uma história triste em algo cheio de luz, que nos prende pelo mistério e que mostra como pode nascer algo tão bonito no seio de uma grande violência.
Provavelmente não é uma leitura que agrade a todos - é densa, faz-se a um ritmo lento, mas para mim é como um mergulhar debaixo de água sem necessidade de vir à tona. É para ler com tempo e desfrutar.

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