Livros bacanos #13 - O Jantar, de Herman Koch (2009)
outubro 07, 2026Dois casais vão jantar a um restaurante luxuoso. Um dos elementos tem uma certa posição política, é amplamente conhecido, e por isso não tem dificuldade em arranjar reserva de última hora no sempre lotado restaurante. Este detalhe, que pode ou não ser algo de especial, levanta pelo menos um arquear de sobrancelhas a um dos membros do grupo, o narrador, que fica ligeiramente irritado com os virares de cabeça, os olhares de estranhos e uma certa sobranceria e altivez por parte do seu companheiro de mesa.
Isto podia ser apenas um jantar, mas há um forte motivo para os quatro estarem ali sentados. Não sabemos logo o que é, mas a tensão, que cresce conforme os aperitivos, as bebidas e as entradas são servidas, já é palpável e desconfortável aquando da chegada do prato principal. Por essa altura, já percebemos que os quatro têm de falar seriamente devido a algo terrível que os filhos de ambos os casais fizeram. Algo impensável, grave, capaz de mudar para sempre as vidas de todos.
O tom amigável e jovial do início da refeição vai sendo substituído gradualmente por farpas, choro, gritos, e esse crescendo de tom, esse caminho para o caos, acompanhado pela dança dos pratos e das bebidas, das descrições intermináveis dos empregados sobre tudo o que está na mesa (que já ninguém consegue ouvir) é uma das belezas deste livro.
Através do narrador, Paul, somos levados ao passado e de novo ao presente de forma a percebermos o porquê de todos estarem ali. Aos poucos, vamos montando as peças do puzzle e quando temos o quadro todo percebemos o quão cínicas e desumanas as pessoas conseguem ser para defender os próprios filhos.
A desconstrução dos acontecimentos e dos carácteres e o brilhantismo no aumento da tensão, com um culminar de violência e loucura, são alguns dos atrativos deste livro. A construção de personagens e conseguirmos interpretar os seus sentimentos é bem conseguida porque nos angustia e inquieta. E não gostamos especialmente deles, o que é uma novidade. A discussão moral sobre valores e ética também nos faz pensar - agiremos de forma nobre quando tivermos de defender os nossos? Não é um livro perfeito, mas é dos mais interessantes que li nos últimos tempos. Obriga-nos a um exercício de reflexão e faz algo raro e desconfortável para uma história que começa de forma tão banal: conforme a narrativa avança, deixamos de saber exatamente de que lado estamos.

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