O Sofrimento do Hipócrita

segunda-feira, setembro 14, 2009


"Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma acção ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, pôr açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. (...) 0 hipócrita é um titã-anão.


Victor Hugo, in "Os Trabalhadores do Mar"


O hipócrita é um jogador, que aprendeu a movimentar-se subtilmente por entre os dados lançados ao seu redor. Observador, capaz de atribuir o raciocínio mais lógico à escabrosa mentira, preponderante e acérrimo defensor de ideias que podem muito bem não ser as que apoia, o hipócrita sua, sorri, mente, aplaude, cala-se, perante um público por entre o qual se move como brisa conhecedora.
Iludir é um cansaço constante, que implica conhecer a fundo e agir por detrás de panos, nos bastidores, na sombra, onde ninguém desconfia.
Condenemos a hipocrisia como acto reprovável nos seus fins, mas apreciemos as qualidades de quem tão bem engana, sem pestenejar, sem vacilar, pois, afinal, foi possível porque aconteceu um estudo profundo da envolvente.

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