As Horas

quinta-feira, outubro 01, 2009



"Damos festas, abandonamos as nossas famílias para vivermos sós no Canadá, batalhamos para escrever livros que não mudam o mundo apesar das nossas dádivas e dos nossos imensos esforços, das nossas absurdas esperanças. Vivemos as nossas vidas, fazemos seja o que for que fazemos e depois dormimos: é tão simples e tão normal como isso. Alguns atiram-se de janelas, ou afogam-se, ou tomam comprimidos; um número maior morre por acidente, e a maioria, a imensa maioria é lentamente devorada por alguma doença ou, com muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas uma consolação: uma hora aqui ou ali em que as nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, abrir-se de repente e dar-nos tudo quanto jamais imaginámos, embora todos, excepto as crianças (e talvez até elas), saibamos que a estas horas se seguirão inevitavelmente outras, muito mais negras e mais difíceis. Mesmo assim, adoramos a cidade, a manhã, mesmo assim desejamos, acima de tudo, mais."


Michael Cunningham, in "As Horas"


O crescimento dá-nos a noção do fim. Entendemos perfeitamente que a nossa passagem por aqui é efémera. É tudo uma questão de tempo, anos, meses, segundos. Esse entendimento leva-nos a procurar tempo, o nosso tempo, escapes. Procuramos construir memórias, criar expectactivas, e sentir que a viagem não é em vão. Celebramos, lemos, ouvimos música, apreciamos sabores, e manipulamo-nos, também, de modo a sentir tudo com mais intensidade. Nem sempre é linear, nem sempre é como planeamos, como queremos ou imaginamos. Nem todo o tempo é agradável. A consciência de que o tempo existe leva-nos a contá-lo, e estamos sempre a olhar para um calendário, para as horas, para a posição do sol. Falta um mês para. Faltam 15 minutos para começar. Faltam dois anos para que. E não saímos daqui. O nosso tempo, esse sim, começa a faltar. Mas a expectativa do tempo que planeámos, faz-nos desejar e ansiar por algo palpável que efectivamente vai acontecer, e isso já é tanto... O marcar um ponto no calendário, olhar para o que está escrito, e pensar que vai ser tão especial.

Também deves gostar disto

1 comentários

Seguir por email

Visitantes

Blogs Portugal