Gargalhada

quarta-feira, outubro 14, 2009


"A única crítica é a gargalhada! Nós bem o sabemos: a gargalhada nem é um raciocínio, nem um sentimento; não cria nada, destrói tudo, não responde por coisa alguma. E no entanto é o único comentário do mundo político em Portugal. Um Governo decreta? gargalhada. Reprime? gargalhada. Cai? gargalhada. E sempre esta política, liberal ou opressiva, terá em redor dela, sobre ela, envolvendo-a como a palpitação de asas de uma ave monstruosa, sempre, perpetuamente, vibrante, e cruel – a gargalhada! Política querida, sê o que quiseres, toma todas as atitudes, pensa, ensina, discute, oprime – nós riremos. A tua atmosfera é de chalaça."

Eça de Queirós, in 'Uma Campanha Alegre'


Já nada é crível ou credível, politicamente falando, em Portugal, há já longos anos. Como rir é o melhor remédio, também há já várias gerações, resta-nos gargalhar como forma de crítica. Mostremos a nossa descrença e descontentamento, não através de vozes descontentes e dedos espetados, mas rindo, com vontade, na cara daqueles que estão à frente do nosso país. Nada pode destituir a gargalhada. Não há resposta para ela, nem tão pouco sermões, senãos, ou promessas de retorno. E, no entanto, é o maior selo de descrédito que se pode oferecer. Ah! Ah!

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