Ninguém Sabe Coisa Alguma

terça-feira, outubro 13, 2009


"Porque nós não sabemos, pois não? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente à anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o inimigo da banalização da experiência, e o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por saber."



Philip Roth, in "A Mancha Humana"


Pois é. O humano, que se julga dono da razão, não passa de um peão com basicamente nenhum voto na matéria, no que toca ao seu julgamento e sabedoria sobre tudo. Cada um "sabe" de si. E mais nada. E mesmo assim, o conhecimento próprio é o mais difícil de atingir, porque somos tão ou mais mutáveis do que o mundo, e muito mais efémeros. Passamos por um crescimento constante, no qual as opiniões e saberes vão evoluindo, mudando, transformando-se, adaptando-se. Como podemos saber alguma coisa? De qualquer forma, vamos tendo certezas, embora estas se transformem tanto como nós. O que nos faz pensar acerca do conceito que gira à volta da "certeza".
Gostamos de aprender, interessamo-nos. Lemos, ouvimos, estudamos, trocamos ideias sobre vários assuntos. No entanto, quando consideramos saber, podemos estar redondamente enganados. Associamos a esse saber todo um sentimento de poder, que nada garante que seja verdadeiro.
Temos de ter consciência da nossa pequenez e insignificância relativamente a todas as condicionantes, variáveis e acasos que regem mais o nosso dia-a-dia, do que nós próprios.

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1 comentários

  1. Pois é. Quem sabe muito começa a pensar que sabe tudo. E o que é muito?

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