Horário do Fim

sexta-feira, fevereiro 03, 2012

"morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento"

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

A morte parece-nos sempre distante. Só acontece aos outros. Vemos na televisão, sentimos pena por minutos e depois, acabou. A nossa hora ainda está tão distante. Para quê pensar nisso?
Quando digo: "Sim, vou fazer isto hoje, e agora. Sei lá se vou estar cá amanhã." respondem-me "Ai, credo.", "Não digas essas coisas", ou "Tás parva?". E depois, de repente, alguém morre. Alguém que não é assim tão próximo para que sintamos a dor, mas alguém jovem, por quem passávamos na rua e dizíamos olá. Alguém que deixou cá a família, os próprios pais ainda jovens, os irmãos, a chorar, e a desabar por dentro desde que ele se foi. E sentimos aquela pena, aquela compaixão.
Por isso, sim, vou fazer as coisas hoje. Vou esbanjar o meu dinheiro como quero. Vou ver as bandas que eu quiser lá fora. Vou comer bem, experimentar coisas. Falar com as pessoas da maneira que elas merecem. Passar tempo com quem me faz feliz. Borrifar-me cada vez mais para o que não vale a pena.
Continuo a não saber se vou cá estar amanhã. E se acordar amanhã, pensarei o mesmo.


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2 comentários

  1. Perfeito raciocinio, perfeita ideia. Penso que se nos preparasmo para morte, podemos sim viver. Viver em seu auge, sem temer, como a cliche frase: Fazendo valer a pena!

    Use abuse, coloque aquela roupa nova que seria pra uma ocasião especial, vista-a hoje. A chuva que tememos e corremos, sinta ela, dance com ela. O chefe estressado que ainda não compreende o valor da vida e da morte, cante uma canção pra ele. OU... mande ele para aquele lugar hauahahu
    sempre que puder estarei por visitar ta!! ahuahau abraçoss

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