Mudam-se os tempos, mudam-se as pachachas

quinta-feira, outubro 22, 2015

"_Rapou a cona toda, não tinha um único pêlo. Alguma vez dormiste com uma mulher que rapasse a pássara? É repugnante, não é? E também fica engraçada. Fica esquisita. Deixa de parecer uma cona, é como um molusco morto ou algo do género. (...) Fi-la abri-la e apontei-lhe a lanterna. (...) Entusiasmei-me tanto, que me esqueci da gaja. Nunca na vida tinha olhado tão atentamente para uma cona. (...) E quanto mais olhava, menos interessante se tornava... o que só prova que não tem grande valor, especialmente rapada. São os pêlos que as tornam tão misteriosas."

In Trópico de Câncer, de Henry Miller (1934)

Este livro brutal foi proibido em vários países pela sua promiscuidade e linguagem obscena. Custa a crer que tenha mais de 80 anos. Para mim, parece ter sido escrito hoje. Fala de putas do início ao fim, de álcool e drogas, da boémia Paris entre duas guerras, de sexo, de relações estranhas e desconfortáveis, completamente sem tabus ou regras.

O único facto que me faz crer na idade do livro é a representação ideal da pachacha. Na altura, a passarinha perfeita era peluda. Quanto mais peluda melhor - mais misteriosa e encantadora parecia. A primeira cona rapada que o personagem viu foi um acontecimento estranhíssimo, e não gostou, comparando-a a um molusco morto. A consistência de uma lula e a aparência de uma ostra, diria eu. É caso para dizer - mudam-se os tempos, mudam-se as pachachas.


 

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2 comentários

  1. Like.
    Muito bom, quem diria... á tanto tempo atrás...
    Sou fã do blog.

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  2. Verdade :) Como tudo numa em tão "pouco" tempo!
    Obrigada pelo apoio.

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