As coisas que se aprendem #39 - o holocausto brasileiro

by - terça-feira, junho 06, 2017

Trouxe da biblioteca um livro que me deu a conhecer um período negro da História, conhecido agora como o Holocausto Brasileiro. Fiquei estarrecida, em primeiro lugar por aquela realidade ter acontecido durante tanto tempo nas barbas de toda a gente; em segundo lugar, porque o desconhecia. E a ignorância que tinha disto envergonha-me. Foi negro, horrível, doentio, e como tal sinto a necessidade de falar sobre isso. Se mais alguém tomar conhecimento do que se passou, nem que seja uma pessoa, será um passo de formiga dado para que não volte a acontecer.

Ora o Holocausto Brasileiro refere-se a um manicómio, o Colônia, em Minas Gerais, em funcionamento entre 1903 e 1980 onde morreram 60 mil pessoas. Logo por aqui se vê algo de muito errado. O número de mortes tão elevado deve-se, muito resumida e assertivamente, ao facto de as pessoas serem colocadas lá para morrer.

Qualquer pessoa que revelasse problemas mentais, desde os mais profundos até às coisas mais simples como depressão, tristeza, ou patologias como epilepsia, estava sujeita a ir lá parar. De todos os cantos do Brasil, homens, mulheres e crianças eram lá depositados pelos seus familiares ou instituições para nunca mais saírem. Como se estivessem a jogar um papel no lixo. Outros havia, claro, que as famílias achavam que estavam a fazer o melhor para eles. Mas não.

As condições no manicómio eram as piores que se possam imaginar. Logo à partida, os "doentes" eram despojados da roupa e ficavam nus, num clima que era bastante frio no meio das montanhas. Para além da vergonha, que acabavam por perder porque andavam todos assim, o frio matava. Para dormir, empilhavam-se uns em cima dos outros para procurar algum calor, e muitos acabaram por morrer sufocados. Também não haviam camas na maior parte dos locais. Para ganhar espaço para mais e mais pessoas num espaço já de si sobrelotado, foram retiradas as camas e substituídas por montes de relva.

A comida era pouca e a subnutrição também matava. Para se ter comida, eram obrigados, em jejum, a ficar horas numa fila porque quem ficasse para trás já não teria nada para comer. Para beber, era água do esgoto, bebida a partir do chão.

Os "doentes" também eram recebidos com choques eléctricos. Quando se "portassem mal" também os recebiam. Outra causa de morte. Nem todos os aguentavam. Quem já era maluco ficava ainda mais, e quem não era acabava por se tornar. Com a fome, comiam os pequenos animais que se atravessem a aparecer nos pátios, matando-os com as próprias mãos e comendo-os a sangue frio.

Num ambiente aberto ao sexo, muitas das mulheres engravidavam. E, claro, não eram autorizadas a ficar com os filhos. Para impedirem que os médicos e enfermeiros se aproximassem, cobriam o corpo com as próprias fezes.

Os cadáveres resultantes deste terror eram mais que muitos. Foi feito negócio com muitas faculdades para ficarem com os mesmos, mas isso não impedia que os corpos que sobravam fossem sendo amontoados no cemitério anexo.

Isto é uma pequena parte do que acontecia. Sugiro que leiam o livro ou que vejam o documentário. Este, ainda não tive coragem para ver. Alguns dos sobreviventes ainda são vivos e mal conseguem contar o que foi feito das suas vidas. Nem eu tenho palavras para dizer o que sinto. Quem é capaz de manter estas pessoas assim, não tem qualquer humanidade dentro. O ser humano consegue ser para lá de repugnante. Hoje, o manicómio é um museu. Da vergonha.

As fotografias em baixo são de Luiz Alfredo, repórter fotográfico que nunca mais foi o mesmo depois de ver o que viu.










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