A premissa do livro não é nova - e se soubéssemos exatamente a duração da nossa vida? O que é novo é a forma e o desenvolvimento dessa realidade.
Num dia como tantos outros, todas as pessoas do mundo, absolutamente todas, acordam com uma caixa por perto que tem o nome do destinatário e uma inscrição - "Aqui se guarda a medida de uma vida". Lá dentro, existe uma corda, com um tamanho diferente para cada um, e que corresponde à duração da vida. Depois do choque e da confusão, e também do descrédito inicial, conforme o tempo passa a veracidade da corda é confirmada.
Assim se forma uma nova sociedade, dividida entre aqueles que sabem que terão uma vida longa e os outros, os chamados "cordas-curtas", e ainda entre os que se recusam a abrir a caixa. E, como em todas as sociedades, as minorias começam a ser discriminadas, julgadas e postas de parte. Por exemplo, ninguém quer contratar "cordas-curtas". Os seguros recusam-se também a criar apólices para pessoas que morrerão em breve. São recusados tratamentos médicos àqueles que se sabe que morrerão de qualquer forma. As eleições estão à porta, e ninguém quer um presidente que possa morrer no mandato, nem qualquer "corda-curta" num alto cargo. Afetivamente o impacto é enorme - pais percebem que filhos vão morrer antes deles; há casais com tamanhos de cordas diferentes que não aguentam saber que o parceiro terá uma vida breve e separam-se; há amigos que se afastam porque não querem sofrer perdas.
À medida que os "cordas-curtas" vão sendo cada vez mais discriminados e conforme vão avançando leis para lhes tirar direitos, existem manifestações e atos de violência que os generalizam e catalogam como párias. No meio disto tudo, é pouca a empatia e compreensão por aqueles que são os mais lesados de todos - os que vão morrer em breve e sabem-no.
É um livro que, embora parta de uma situação completamente irreal e ficcional, levanta questões bem reais que podem ser facilmente encontradas à nossa volta nos dias de hoje, como a discriminação, instrumentalização política ou exclusão económica. A narrativa acompanha oito personagens e vamos observando as consequências disto tudo através dos seus olhos. Tem um ritmo intenso, uma boa estrutura, e os ingredientes necessários tanto para nos agarrar como para nos fazer pensar na nossa própria condição.









