Tonigh, tonight

sexta-feira, maio 08, 2009


"Time is never time at all
You can never ever leave
Without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change, the less you feel"

Smashing Pumpkings - "Tonight, tonight"
in Mellon Collie and the Infinite Sadness (1995)


Seria catastrófico se o tempo tivesse uma porta que nos imortalizasse enquanto estivéssemos do outro lado? E como seria o outro lado? Poderíamos desenvolver actividades, ou seria apenas uma brancura total, onde estaríamos sem envelhecer enquanto lá estivéssemos? Poderíamos levar um livro, para passar "o tempo" (inexistente)? Existiria um máximo de "tempo" em que poderíamos estar expostos a este infinito nada? O nosso corpo começaria a derreter, caso ficássemos lá mais de uma hora seguida? Teriam de haver limites, concerteza. Poderíamos confraternizar? Ou existiria uma porta para cada um, qual B.I., pessoal e instransmissível? Iria haver contrabando de portas?
Andamos por aqui a deixar rastos de juventude pelo chão, varridos pelos movimentos dos nossos corpos, e pelos corpos dos outros, e nem notamos. A mudança quase não é notada. Mas cada dia a mais, é um dia a menos.

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4 comentários

  1. Ainda noutro dia estava a olhar para uma velhota e a pensar nisso mesmo...
    A pensar que aquela mesma velhota já foi jovem como nós. Já teve uma vida pela frente. Um futuro. E provavelmente, também deixou passar o tal tempo por ela. Imperceptível. Sem se aperceber que cada dia que vivia, era um dia a menos.

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  2. Daí o velho cliché que nos diz para aproveitarmos ao máximo o tempo que nos é dado. Tens aproveitado? ;)

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  3. Spaceman,

    Pode dizer-se que, se morresse agora, poderia afirmar que não estive aqui ao acaso e sem nexo.

    Luthien,

    A imperceptibilidade da passagem do tempo é uma benção e um castigo. Há que manter o balanço.

    =)

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  4. A eternidade fora do tempo é uma outra forma de viver o tempo. É uma descrição metafórica do que se passa ao tempo quando nós o viramos ao contrário, quando de certa forma deixamos de ser arrastados pela vida, por um futuro exterior a nós que está sempre a reclamar connosco, com o rolo de massa na mão, e deixamos também de ser atormentados por um passado que não conseguimos alterar e que de vez em quando volta a emergir. Quando percebemos que a nossa história é algo que podemos recriar, que não está fechada, que é uma espécie de conto que podemos narrar de diversas maneiras, construindo assim novos sentidos; quando percebemos também que o futuro que nos puxa é construído pelas nossas expectativas, filhas da nossa forma de ver a vida, de a interpretar, de a pensar, sendo que isso não é só algo em que inevitavelmente caímos, mas é também algo que podemos a qualquer momento elaborar - a percepção deste em aberto, esta liberdade criativa, vivida não apenas num mero momento de reflexão, mas executada vitalmente a cada momento (ou no esforço de a executar a cada momento), isso altera o tempo e a nossa posição nele. Saímos do presente subjugado a um passado e a um futuro que se nos impõem e somos de alguma forma um todo dinâmico que extravaza os momentos concretos em que nos jogamos. É isto a eternidade, o estar a ser fora do tempo quotidiano. É o agora que não passa, porque toda a passagem se torna interior ao todo que nos tornamos. É com base nesta experiência possível, embora extraordinaramente difícil, de alcançar e de manter (o tal plano inclinado de que fala o Kafka) que se desenvolveram, a meu ver, as mitologias do além. O além é a transformação da vida. É outro mundo não porque somos transladados, mas porque o viramos do avesso e aprendemos a pô-lo, em vez de o receber como posto e imposto. Não te parece que isto faz algum sentido?
    Quanto à morte, ela também é um sentido que nós podemos construir a cada momento. E o mais temível não é, acho eu, o não vir a ser, mas o não ter sido e o não estar a ser. Simplesmente nós não entramos em pânico com o não estar verdadeiramente a ser num determinado momento, por termos ainda o amanhã. Quando a morte se aproxima, o pânico que sentimos não é tanto do nada absoluto, mas do nada relativamente à nossa realização vital, ao sermos plenamente. É a ausência do absoluto da eternidade. Porque, por outro lado, também nenhum de nós desejaria o tempo que nunca mais acaba, que prossegue depois de termos conhecido todas as pessoas, todas as acções, todos os pensamentos, todas as paisagens, tudo, quando nada mais resta para ser experimentado do que a repetição do ontem. Isto é um pouco simplificado, mas acho que a ideia é correcta. Nós queremos é alcançar e possuir um sentido forte durante a vida.

    Protréptico

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