Morreste-me

quinta-feira, novembro 19, 2009


"Pai, fiquei no silêncio do inverno que abraçaste. Não há primavera se não imaginar erva fresca das palavras erva fresca ditas por ti; não haverá verão se não imaginar o sol da palavra sol dita por ti; não haverá outono se não imaginar o fundo do esquecimento da palavra morte dita nos teus lábios. Por isso, pai, no ar, o silêncio de ti é sofrer, no tempo que passa, no ar, no tempo que já não passa."

in "Morreste-me", de José Luís Peixoto (1998)


Estás no ar, nos cheiros, nas cores que relembro, na voz que recordo. Cada vez mais distante, mais esbatida. Não a quero esquecer, nunca. A mesa posta, a campainha da porta sempre rouca, e o "já vou", gritado lá de dentro, de onde não te via, mas imaginava-te, ainda com molas de roupa na mão, colocadas à pressa nos bolsos do avental.
Tantos dias, tantos meses, tantos anos já, sem uma palavra. E tudo caminhava para aqui, e ninguém queria ver. Tudo demasiado negro para se acreditar.
De repente, o vazio. Do nada, o silêncio, de tudo, a morte.
Nas reticências do tempo, a ferida aberta de tempos a tempos. E tudo o que me ensinaste, avó, a companhia que fizemos, os panos que tecemos, as canções que cantámos, são o que sou, estás em mim, viva no meu sangue, na minha recordação alegre e vívida da construção de mim. Não te recordo sem saudade e sem derramar a parte de nós que ficou ainda por contar. Tanto que ficou.

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