Ânsia

domingo, março 14, 2010


"E então lentamente os dois corpos em movimento, convergentes a um centro de fusão. A ânsia, a vertigem. Como é extraordinário que o sentir mais intenso não se saiba dizer. As tuas pernas cruzadas sobre os meus rins, as minhas mãos em todo o teu corpo animal. E na avidez acelerada, tu irmanada à urgência do impossível, ao uivo, atravessados um e outro por um demónio em chamas, ter-te, repassar-me inteiro para ti, as minhas mãos sob os teus braços nos teus ombros, retrair-te toda a mim, até à dor à agonia, repassar-te para mim, corroídos ambos de uma dor horrível até ao estrume de nós, à abjecção, destru
ição em farrapos do que é ainda em nós um corpo, o que o identifique, a raiva horrorosa de quanto em nós é animal desde a animalidade da selva, do escuro das cavernas e o rebentamento final de uma agonia até ao vazio do incompreensível e da morte. E assim ficamos longo tempo, restos, detritos, espojados um no outro, deslassados, estrume para o vazadoiro, esgotados, na lenta recuperação da identidade de nós, na fria neutra materialidade de dois corpos de carne morta. Descanso a minha face na tua, no teu ombro, a excrescência de mim no teu interior, tu ainda amortecida, retraída a ti devagar, na babugem da onda estoirada amortecida efervescente na areia. E assim estamos, não nos movemos, à espera de que cada um se reconheça a si, fechado em si, verdadeiro na sua independência."

in "Em Nome da Terra", de Vergílio Ferreira


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Genial.

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