Vida Negada

sábado, abril 03, 2010


"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo próximo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter de desabotoar o casaco."


in
"Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa as Bernardo Soares



Grande parte do nosso tempo, passamo-lo a desejar. A desejar que não estivesse a chover para irmos lá fora; a desejar termos dinheiro para ir lá fora sentar numa esplanada, pedir uma cerveja e aproveitar o sol; a desejar termos companhia para ir gastar dinheiro e sentarmo-nos, bebendo uma cerveja, aproveitando o sol. É um ciclo infinito, que faz parte integrante da alma dos insatisfeitos. O que não tem mal nenhum. Desejar é saudável, dá alento, objectivos, metas. No entanto, há que reconhecer que grande parte da não realização dos nossos desejos se deve à extrema preguiça e inércia que nos atacam de tempos a tempos. Constantes desculpas são anexadas ao nosso palavreado quase imoral, qual justificação mal amanhada.
Não, não irei lá fora, está quase na hora de fazer o jantar, tenho frio, estou constipada, está a dar este filme, dói-me a barriga. E assim se mete no bolso, outra vez, mais uma oportunidade.


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