Não tenho paciência para fornicar

sábado, dezembro 03, 2016

"Não tenho ciúmes, não me importo que se deite com outras pessoas. Eu faria o mesmo. Se tivesse paciência para isso. Mas fazer sexo dá muito trabalho. Quando conhecemos bem alguém, é mais fácil. Dirigimos as nossas línguas para os recantos certos. Pousamos os olhos nas melhores partes. Sem medo de nos ferirmos nas rugas. Com desconhecidos, andamos relativamente perdidos. Sem mapa. Somos turistas. Não habitamos aquelas pessoas. Estamos de passagem. Não sabemos se a rua por onde andamos é perigosa. Quando habitamos uma pessoa, conhecemos as ruas todas. Não nos perdemos. Não, não tenho paciência para fornicar. Não tenho mapas para me orientar na geografia de um estranho."

in Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz (2016)

O jogo de sedução pode ser desafiador para os mais jovens ou para os permanentemente aventureiros que não resistem aos perigos e palpitações da descoberta. Mas, conforme o tempo passa, dá demasiado trabalho. Se já nos perdemos nas ruas conhecidas de alguém, que também nos conhece os pontos certos, aquilo que gostamos e como nos levará às nuvens, é demasiado penoso e dúbio procurar as mesmas coisas, que já se têm por certas, em desconhecidos.
Resumindo, pôr os cornos pode dar uma trabalheira do caraças. 


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