Pessoas estranhas #95 - os promotores da Remax

quinta-feira, março 22, 2018

Estava eu na fila para renovar o passe e a observar os promotores da Remax na estação de comboios, que entregavam panfletos com as casas para venda na zona. Comecei a reparar que o panfleto era entregue apenas a algumas pessoas. Os demasiado velhos e demasiado jovens não tinham direito à folhinha, bem como os maltrapilhos.

Indaguei-me se eu o receberia, embora a resposta me parecesse óbvia. Os meus ténis sujos e rotos de lado, o cabelo despenteado com um caracol para cada freguesia e as covas debaixo dos olhos, vítimas do sono subitamente interrompido, colocavam-me facilmente na lista dos maltrapilhos.

A confirmação seguiu-se, embora tenha passado bem devagarinho em frente às senhoras que fingiram que eu não existia. E seguiu-se também a divagação habitual desta sociedade que ainda se baseia no aspecto superficial das pessoas. Quem não corresponde à imagem de sucesso e dinheiro recebe menos atenção. Por mim, tudo bem, não gosto que me incomodem e normalmente o meu aspecto simples e cara de poucos amigos afastam as aproximações - melhor assim. Mas esta questão da aparência pode estar a afastar potenciais clientes dos negócios. Ou não, toda a gente sabe que o dinheiro só chove em cima de quem veste, no mínimo, um conjunto saia-casaco.

Não é que eu tenha dinheiro para gastar numa casa, mas há meia dúzia de anos fui precisamente cliente da Remax quando comprei a minha, também precisamente naquela zona. Mal as senhoras sonham. Se soubessem, enchiam-me de panfletos apesar da minha roupa cheia de pelos de gato. Pelo menos, os senhores vendedores de mercadoria ilícita para consumo secreto na Baixa, esses, interpelam-me sempre.


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